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A luta pelo sonho de jogar um campeonato nacional

A luta pelo sonho de jogar um campeonato nacional

Traktor EJ (2)

Já contamos algumas vezes da dificuldade que um atleta de futebol americano passa para realizar seu sonho de estar em campo. São custos com equipamentos, material esportivo, uniformes, alimentação, transporte e por aí vai. Também fazemos questão de enfatizar que o esporte da bola oval cresce a passos largos no Brasil, com equipes do futebol tradicional fazendo parcerias, cedendo estádios e tudo mais.

Mas muito deste crescimento se deve aos primeiros times masculinos que começaram jogar em 2005, 2006, quando ainda não se praticava a modalidade no full pads. Histórias – hoje engraçadas – de superação para conseguir importar equipamentos, containers retidos pela Receita Federal e muita dificuldade moldaram o que o esporte é hoje, muito mais fácil de se praticar.

Mas se o full pads masculino já tem quase 10 anos de história, um outro segmento do esporte está começando a engatinhar: o full pads feminino. Com os primeiros campeonatos sendo realizados há pouco tempo, a estrutura ainda é deficitária, a visibilidade é pequena e os custos são tão caros quanto. Enfim, se é difícil fazer futebol americano no Brasil é mais ainda quando se trata da categoria feminina.

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Uma equipe que disputa a Copa Sports América do Brasil, equivalente ao campeonato brasileiro sabe bem disso. As meninas do Curitiba Lions Feminino tinham um sonho de poder jogar o esporte que amavam. A ideia surgiu ao acompanharem seus namorados e maridos nos treinos, ali elas começaram a praticar também e aos poucos juntaram mais e mais mulheres para os treinos.

Veio uma separação e momentos difíceis, onde tiveram o apoio do time masculino para continuarem. Segundo Michele Herder, presidente da equipe, elas chegaram a treinar com apenas oito atletas, mas não desistiram do sonho. Try outs, treinos abertos, convites e estava lá a oportunidade de novamente formarem um time para disputar o primeiro campeonato estadual do Brasil, jogando contra outras duas equipes da cidade.

Uniformizadas com vestimenta semelhante a da  equipe masculina, os detalhes em rosa do uniforme deixavam claro que ali era uma equipe única. Entraram em campo pela primeira vez, realizaram as duas partidas e receberam o aplauso do grande público pela merecida participação. Também receberam suas primeiras medalhas, que com certeza devem estar guardadas em um lugar muito especial de suas casas e de suas vidas.

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Mas como diz o ditado popular: “O céu só é o limite para quem não sabe voar”. E as Leoas curitibanas queriam ir mais longe, queriam conquistar novas fronteiras. Se inscreveram no campeonato nacional e dali em diante tentariam apoios, patrocínios, parcelamentos, enfim, iriam lutar pelo sonho de defender sua cidade em nível nacional.

Não foi nada fácil! Se no masculino já é difícil conseguir patrocínio para equipes de futebol americano, imagine no feminino, que não tem a mesma tradição e visibilidade da mesma modalidade praticada pelos homens. E foi ali que as mulheres do Curitiba Lions mostraram que realmente são umas leoas e tentaram de tudo para alcançar o objetivo. Detalhe: o primeiro jogo era na região metropolitana do Rio de Janeiro, cerca de 850 km de distância de Curitiba.

Só para viajarem 12 horas de ônibus o custo era de quase 8 mil reais, isso sem contar a alimentação. Ao contrário do que muitos pensam, o futebol americano não é praticado por gente rica. A grande maioria trabalha e estuda, paga do próprio bolso os custos dos equipamentos e materiais. Um uniforme da categoria delas – feito pela Traktor Sports – custa em média 180 reais o conjunto (calça + jersey). Mas ainda tem o capacete, os pads, a chuteira, a meia, protetores e sleeves.

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A solução das meninas foi um misto de criatividade, ousadia e porque não, um pouco de “desespero”. Promoveram junto com o time masculino uma festa junina para arrecadar fundos. Deu muito certo e o time juntou um pouco de verba, mas estava longe do suficiente. Também venderam rifas de uma jersey que uma loja de Curitiba cedeu a elas.

Mas o que mais chamou a atenção e que realmente mostrou a vontade que elas tinham de jogar a Copa do Brasil foi o “pedágio solidário”. Sim, elas foram às ruas para conseguir viabilizar a viagem pedindo a ajuda dos motorista que passavam. Elas treinaram durante meses no sábado pela manhã e ao invés de descansarem, passarem o tempo com sua famílias e aproveitar a tarde de sábado iam aos sinaleiros uniformizadas e pediam ajuda para representarem sua cidade nacionalmente, a cidade daqueles motoristas que elas estavam pedindo ajuda.

Nesta “epopeia” foram muitos vidros fechados e muitas pessoas que não deram a mínima atenção, mas também tiveram as pessoas que se compadeceram. Além do dinheiro, que na maioria das vezes eram moedas, algumas notas de 10 e acreditem até uma de 50 reais. Nas redes sociais elas faziam questão de agradecer sem a menor vergonha (e porque teriam, não é mesmo?) a ajuda para a realização do sonho.

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Entre “trancos e barrancos”, parcelamentos e moedas no sinaleiro, na noite de sexta-feira elas embarcaram para o Rio de Janeiro. Doze horas dentro de um ônibus e a previsão de chegada próximo do horário da partida. Muito cansaço, horas de um sono difícil na estrada e o sonho estava muito perto de se realizar. Faltava pouco.

Enfim o aquecimento, a preparação dos uniformes, a oração e o hino. Estava tudo pronto para o Curitiba Lions estrear no campeonato nacional. Horas que somadas dariam semanas de preparação para poderem representar seu estado nacionalmente. O jogo passa rápido para nós que assistimos, com duração máxima de 2 horas e meia. Mas para elas foram momentos inesquecíveis, que ficarão guardados para o resto da vida. A primeira viagem, o primeiro jogo fora de sua cidade e a luta que foi para tornar isso possível.

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Depois de muita superação o Curitiba Lions Feminino foi ao Rio para estrear na Copa do Brasil (foto Jayson Braga).

A vitória não veio e o placar é o que menos importa, porém toda vez que alguém realiza um sonho tão bonito, que não tem nada a ver com conquistas materiais e financeiras, o céu fica mais azul, as pessoas ficam mais felizes, tudo começa a valer a pena. E no mundo em que vivemos hoje ver estas atletas lutando tanto para realizar algo dentro do esporte que tanto amamos é extremamente louvável. A realização do sonho delas se torna uma realização de todos que acompanham o esporte. Sem sombras de dúvida é algo para ser aplaudido de pé.

*Fotos por Jayson Braga e Instagram atletas Lions.

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Leopoldo Scremin

Leopoldo Scremin é jornalista com passagem por diversas plataformas de comunicação (rádio, jornais e televisão).

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