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O vinho e o vinagre

O vinho e o vinagre

Existe uma velha máxima que diz que vinho bom é vinho velho. Ao pesquisar sobre o tema, descobri que isso é uma grande inverdade, pois para envelhecer bem um vinho precisa ter uma estrutura robusta, isto é, uma combinação perfeita de seus elementos base para que nem um, nem outro desses elementos se estrague com o tempo. E mais, grandes enólogos dizem que apenas 10% dos vinhos fabricados hoje em dia possuem essa combinação rara. Caso o vinho não possua esses pré-requisitos, dentro de alguns anos (ou até mesmo meses) ele vai começar a perder o seu sabor e por fim tornar-se-á um vinagre intragável.

Acredito que esse processo pode ser comparado aos quarterbacks na NFL. Neste ano de 2015, 14 dos 32 quarterbacks que iniciaram a temporada possuem 30 anos ou mais (44%) e apenas quatro (11%) possuem mais de 35 anos; são eles: Josh McCown (36, Cleveland Browns), Drew Brees (36, New Orleans Saints), Tom Brady (38, New England Patriots) e Peyton Manning (39, Denver Broncos). Tirando McCown que foi reserva por quase toda a carreira (o motivo pelo qual ele durou até hoje), os outros três são grandes nomes na história do esporte, com um busto de bronze garantido em Canton. Isso mostra a grande dificuldade que existe em, não só encontrar um grande QB para o momento atual, como também um que seja capaz de envelhecer e se manter com um alto nível de produção em uma liga que está sempre mudando seus paradigmas. Assim como um vinho, é necessário que um quarterback tenha uma combinação rara de pré-requisitos, caso contrário não terá uma carreira muito duradoura na liga. Esses três nomes que destaquei da lista acima são os melhores exemplos, e ainda existem outros que também podem chegar ao mesmo patamar deles, como Aaron Rodgers e Carson Palmer. Porém, assim como o vinho, esses QBs também precisam saber a hora de parar, para que suas grandes carreiras não sejam transformadas em memórias dolorosas e manchas irretocáveis.

O que nos traz a semana 10 da temporada de 2015 da NFL e o momento em que Peyton Manning foi para o banco, em favor de Brock Osweiler. O jogo não estava bonito, Peyton já havia somado quatro interceptações e estávamos apenas no meio do terceiro quarto ainda, ou seja, havia tempo de alcançar o recorde de maior número de interceptações em um jogo (7). Gary Kubiak percebeu que se não fizesse algo rápido, poderia estragar mais ainda o dia em que o seu quarterback rompeu a marca de Brett Favre de maior número de jardas de passe na história. Na minha coluna da semana de bye dos Broncos, falei sobre como o fim de carreira de Peyton estava próximo, e ressuscitei a questão que muitos achavam que ele deveria ter se aposentado quando se machucou da primeira vez, ficando fora da temporada de 2011.

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não é estranho?

Na história recente, temos diversos exemplos mostrando todos os lados. Brett Favre teve uma carreira histórica no Green Bay Packers e após se aposentar e se desaposentar duas vezes, jogou dois anos pelo New York Jets e dois anos pelo Minnesota Vikings; desses quatro, em apenas um Favre se destacou, quando levou os Vikings para a final da NFC de 2010 quando perderam para os campeões New Orleans Saints; mas mesmo assim, toda essa brincadeira da aposentadoria colocou uma pequena marca em sua carreira impecável. Joe Montana ainda tentou jogar dois anos pelo Kansas City Chiefs depois de ter passado dois anos machucado e ser substituído por Steve Young, mas também só conseguiu levar os Chiefs a uma final de AFC. Troy Aikman e Dan Marino se aposentaram por causa de seus corpos não aguentarem mais outra temporada, evitando ficar mais um ano e sofrerem alguma contusão séria. O único que conseguiu sair no topo foi John Elway, que se aposentou depois de vencer os dois únicos Super Bowls de sua carreira, sendo inclusive o MVP do Super Bowl XXIII, o último que disputou.

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Veja bem, os Broncos de 2012 em diante realmente foram um time vencedor, e Peyton fez com que eles tivessem uma chance legítima de vencer o Super Bowl nos seus dois primeiros anos como quarterback do time. Em 2013, ele teve a melhor temporada estatística de um quarterback na história, quebrando vários recordes e levando o time ao Super Bowl. Mas hoje podemos ver que aquele ano foi o seu auge e o seu limite. Qualquer vinho possui o seu momento ideal, aquele em que a combinação das estruturas base está tão boa que ele está na sua melhor forma, e logo após ele começa a perder esse momento e caminhar para o vinagre. A temporada de 2013 foi o melhor momento de Peyton Manning como um profisional, mas em 2014 ele começou a mostrar que não era mais o mesmo, e esse ano começamos a provar o vinagre que se tornou o seu jogo. O cérebro de Peyton Manning (de longe, seu maior atributo) continua intacto, ele continua fazendo as mesmas leituras, com o mesmo entendimento do jogo e consegue enxergar o que a defesa adversária está fazendo. Mas a parte física não está mais lá; além de estar constantemente machucado, os passes estão chegando um segundo antes ou depois, as bolas altas estão indo um metro a frente ou atrás e como Al Pacino ensinou em “Um Domingo Qualquer” (se você ainda não assistiu esse filme, termine a coluna e vá assisti-lo agora), “Football is a game of inches” (O futebol americano é um jogo de polegadas). Não sabemos ainda qual será o fim da carreira de Manning. Para o próximo jogo, Osweiler será o titular e Manning estará fora para cuidados médicos. Caso tudo permaneça como está, ficará a lição para Brady e Brees, de saberem avaliar suas carreiras, antes que virem vinagre.

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Gustavo Esteves

Gustavo mora no Rio de Janeiro e é fã de futebol americano há 15 anos, torcendo pelos Broncos desde sempre. Gustavo também é tradutor profissional e traduziu o livro "Tire os Olhos da Bola" de Pat Kirwan, o primeiro livro sobre futebol americano no Brasil. Contato profissional e mensagens pessoais no e-mail: gustavoesteves.7@gmail.com

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