Opinião: Goodell e o “xeque mate” ao contratar Jay-Z

Vou fazer uma apologia envolvendo política brasileira para tentar chegar ao ponto deste editorial. Já pensou se em meio a crise do “Vem Pra Rua”  então presidente Dilma Rousseff tivesse convidado o então deputado Jair Bolsonaro para ser seu “Ministro da Defesa”? E o líder do MBL, Kim Kataguiri, para ser ministro de outra pasta relevante?

Se eles aceitassem. Será que as passeatas continuariam e ela sofreria impeachment, como realmente aconteceu?

É mais ou menos isso que o comissário Roger Goodell fez ao contratar a Rock Nation para administrar a parte artística da NFL. A empresa de Shawn “Jay-Z” Carter a partir de agora irá cuidar da administração das músicas, plataformas musicais, produção de shows e eventos artísticos da NFL, além do programa da liga criado para trabalhar a inclusão e criação de novas políticas sociais e judiciais para acabar com a violência policial sistêmica contra os afro-americanos.

Muitos irão dizer: “Jay-Z tem engajamento nesta área, ele pode fazer um grande trabalho”. Sim, até pode. Só não podemos nos esquecer que era este mesmo Jay-Z que falava há um ano em boicotar a NFL para defender Colin Kaepernick.

Sim, Goodell contratou um dos maiores aliados – pelo menos em nome e prestigio – que Kaepernick tinha em sua luta contra a injustiça social praticada contra os afro-americanos. Por um contrato multi-milionário o músico não pensou duas vezes e se aliou à liga que “combinou” nunca mais contratar Kaepernick.

E aqui não é nenhuma crítica a ele. Vivemos em um mundo dominado pelo capitalismo e quem tem oportunidade de ganhar um dinheiro a mais vai lá e o faz. Alguns podem chamar de egoísmo, já Jay-Z diz que isso é “pensar para frente”.

Na sua entrevista de apresentação da parceria, ele respondeu a cada um dos dezenas de jornalistas que perguntaram a respeito do assunto da mesma forma. Para ele, se aliar a liga que ate o ano passado era totalmente contra os protestos e colocou diversos atletas sem contrato na “geladeira” por protestarem “é tentar fazer algo a mais”.

Ele chegou a citar na entrevista que “Kaepernick já conseguiu chamar a atenção, agora nós vamos trabalhar para fazer algo a respeito”. Talvez Jay-Z julgue que os três anos em que Kaepernick lidera o “I Know My Rights Camp” não sejam nada perto do que ele irá fazer introduzindo rap nas trilhas sonoras da liga, para deixar a programação menos “country music”.

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Talvez ele também tenha se esquecido que Kaepernick abriu mão de um contrato de U$ 17 milhões com o San Francisco 49ers. Que não consegue mais trabalhar na NFL por ser um ativista pelos direitos que somente agora Jay-Z começará a “defender”. E digo “defender” com “aspas”, pois para fazer isso sua empresa ganhará mais de U$ 60 milhões em quatro anos.

Não a toa, Ed Reid, primeiro atleta a se ajoelhar ao lado de Kaepernick destratou o músico no Twitter. Reed tem outra impressão sobre a negociata de Jay-Z. Ele twittou: “Parece que seu objetivo era ganhar milhões e milhões de dólares ajudando a NFL a enterrar a carreira de Colin”.

E Reed não está errado.

Por que vamos ser coerentes, certo? Se a NFL queria acabar com o processo de conluio, não seria muito mais fácil – ao invés de pagar os cerca de U$ 35 milhões para Kaepernick de indenização, comprando seu silêncio a respeito do conluio – oferecer a Kaepernick um cargo administrando a Inspire Change, programa da liga para acabar com a desigualdade racial?

Não seria mais honesto? Trazer para seu lado quem realmente luta pela causa. Que abriu mão de muito por aquilo? Para Roger Goodell parece que não.

Ao trazer Jay-Z para ser seu “produtor musical”, ele amarra qualquer chance de artistas que tenham contrato com a Rock Nation de boicotar os eventos da liga, incluindo o show do intervalo do Super Bowl.

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É de conhecimento público que muitos artistas americanos se negaram a participar das´últimas edições deste show, inclusive a artista Rihanna. Com este contrato, muito mais do que resolver a parte artística, Goodel cala quem ainda acredita – e estou falando dos atletas afro-americanos – que a liga tem seu viés racista.

Com um simples contrato, Goodell dá um “cheque-mate” nos que protestam e encontra um ótimo argumento para qualquer acusação de que ele não ouve as minorias. Ele não irá resolver o problema, apenas calará quem aponta que o problema existe.

Ah, só para constar. Sabe quem aproximou os dois, Jay-Z e Goodell? Robert Kraft. Sim, aquele mesmo envolvido com prostitutas de um bordel acusado de traficar mulheres asiáticas.

Cada um com os seus pares…

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